
Objetivo foi avaliar desafios e potencialidades da implementação do Manual que está sendo construído coletivamente pelo projeto e poderá ser replicado por outros municípios brasileiros
Aline Rickly (Fórum Itaboraí/Fiocruz)) Publicado em 14/05/2026
A Fiocruz e o Ministério das Cidades concluíram a etapa das visitas técnicas aos territórios pilotos selecionados para o projeto de Desenvolvimento Urbano Integrado com enfoque na Redução de Riscos de Desastres geo-hidrológicos (DUI-RRD). O encerramento desta fase ocorreu na última semana de abril em Belo Horizonte e Nova Lima, em Minas Gerais; e Simões Filho, na Bahia.
O objetivo foi avaliar os desafios e potencialidades desses municípios ao implementar as primeiras etapas do Manual para projetos de Desenvolvimento Urbano Integrado com enfoque na Redução de Riscos de Desastres Geo-hidrológicos, um documento elaborado na primeira fase do projeto que deverá ser finalizado até dezembro deste ano servindo como referência para outros municípios brasileiros com histórico e/ou potencial de desastres climáticos.
O Projeto DUI-RRD Cidades busca integrar esforços para desenvolver, aprimorar e aplicar novas metodologias, tecnologias e práticas em contextos de risco de desastres. As primeiras etapas do manual englobam a constituição da governança participativa, a apropriação de instrumentos normativos, a identificação e caracterização de áreas prioritárias para projetos urbanos integrados e Diagnóstico Territorial Participativo. Durante as visitas técnicas, foram realizadas apresentações sobre como os municípios planejam a implementação de cada etapa do manual, além de uma capacitação em Desenvolvimento Urbano Integrado, realizada pelo Ministério das Cidades, acompanhada de uma oficina participativa e rodas de conversas com as equipes incluindo representantes da comunidade.
Nestas atividades também foi possível conhecer os locais escolhidos para implementação do manual. Em Belo Horizonte, as equipes estiveram na Bacia do Capão, na região de Venda Nova. O município, por meio do programa chamado Veredas, planeja recuperar áreas verdes implantando soluções baseadas na natureza, como jardins de chuva, campos hídricos e bacias de detenção, contribuindo para redução de alagamentos e para amenizar as altas temperaturas, considerando que a região integra uma das ilhas de calor de Belo Horizonte.
Para o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião, a visita técnica, com especialistas da Fiocruz e do Ministério das Cidades, confere robustez metodológica e chancela institucional às ações em curso, além de ampliar a visibilidade do programa em âmbito nacional. “A expectativa para as etapas subsequentes é de que o manual atue como instrumento orientador e estruturante das ações a serem implementadas. Com isso, esperamos reduzir riscos, enfrentar melhor os impactos do clima e promover melhorias concretas no dia a dia e na qualidade de vida da população”, disse.
Em Nova Lima, a visita foi realizada em Honório Bicalho, que é diretamente impactada pelas cheias do Rio das Velhas, e na região dos Maias, suscetível a deslizamentos. A proposta do município é implantar soluções baseadas na natureza a fim de mitigar os riscos na região. Durante a atividade foi possível ouvir a comunidade que convive com a insegurança, principalmente a partir das enchentes de janeiro de 2022 que deixaram os moradores ilhados, com marcas d’água alcançando 2,5 metros de altura.
Vice-prefeita de Nova Lima, Cissa Caroline afirma que há a expectativa de uma entrega concreta para a região a partir do projeto que vem sendo aperfeiçoado com o apoio técnico do DUI-RRD. “Precisamos planejar e projetar a cidade para o futuro, garantindo mais qualidade de vida e segurança para a população”, disse.
Em Simões Filho (BA), a intervenção prioriza o bairro Cristo Rei, um território de contrastes: embora possua localização estratégica, próxima ao centro, a área é atingida por inundações crônicas, alto déficit habitacional e ocupações irregulares. A proposta coloca a participação popular e o direito à propriedade como eixos centrais para a transformação do território em um bairro resiliente.
Presidente da Câmara Municipal de Simões Filho, Uilton Ramos destacou que o principal gargalo da infraestrutura da cidade é a concentração do fluxo pluvial. Ele apontou que o direcionamento das águas para um mesmo ponto tem sobrecarregado os canais e agravado o desgaste das encostas nos bairros. Ilustrando o impacto real na rotina do município, relatou: “Nas últimas chuvas a água chegou nos meus joelhos”. Como saída para atenuar o cenário, defendeu a necessidade de redirecionar e dividir o volume dessas águas com uma reestruturação na macrodrenagem.
Devaldo Soares de Souza, prefeito de Simões Filho, acrescentou que o crescimento desordenado deixou desafios a serem resolvidos e manifestou o anseio de ver o município como uma referência para outros que sofram com os mesmos problemas.
Sobre as visitas técnicas
As visitas técnicas começaram por Petrópolis, no início do mês de abril. Depois, passou por mais duas cidades no estado do Rio de Janeiro: Nova Friburgo e Paraíba do Sul. Em todos os municípios, as equipes estiveram nas comunidades vulneráveis a riscos climáticos, sejam deslizamentos ou inundações.
Para Luis Madeira, coordenador do projeto e do Programa Institucional de Territórios Sustentáveis e Saudáveis (PITSS), vinculado à Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz, as visitas aos municípios foram muito bem-sucedidas, demonstraram o engajamento das equipes locais e a importância da participação popular. “Precisamos compartilhar conhecimento técnico e o conhecimento daqueles que vivem a realidade nos territórios, permitindo apropriar criticamente o contexto, mas também construir conjuntamente as soluções que buscam superar riscos, construir resiliência climática e promover a saúde localmente”.
Segundo Luciana Barbosa, analista de infraestrutura e Coordenadora de Apoio ao Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Ministério das Cidades que acompanhou a visita à Belo Horizonte e Nova Lima, a experiência em campo é essencial para qualificar esse processo. “As visitas foram fundamentais para compreender, de forma mais próxima, as especificidades das gestões urbanas e dos territórios, a partir dos riscos presentes, que orientaram a escolha das áreas objeto do projeto”, afirma.
As visitas também reforçaram a importância da construção coletiva do manual. Foi o que destacou Tais Furtado, assessora técnica especializada na Secretaria Nacional de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Ministério das Cidades, que visitou Simões Filho. Ela ressaltou que é importante o engajamento da comunidade para que o projeto seja estruturado: “essa semente vai dar muitos frutos no futuro”, disse.
Próximas etapas
As próximas etapas do manual contemplam definição de soluções consensuadas, consolidação do projeto urbanístico integrado e a estratégia da estimativa de custos e viabilidade econômico-financeira.
O projeto DUI-RRD Cidades engloba a participação do Ministério das Cidades, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (SNDUM), e da Fiocruz, por meio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), com o Programa Institucional Territórios Sustentáveis e Saudáveis (PITSS) e o Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina, além do Fórum Itaboraí: Política, Ciência e Cultura na Saúde/Fiocruz Petrópolis.

