Encontro reuniu pesquisadores, gestores e representantes de movimentos sociais para discutir desenvolvimento sustentável, impacto das desigualdades sociais, crise climática e políticas territoriais
O Fórum Itaboraí: Política, Ciência e Cultura na Saúde/Fiocruz Petrópolis promoveu, no dia 22 de maio, no Palácio Itaboraí, o seminário “Agenda 2030: Saúde e Desenvolvimento Urbano”. O encontro reuniu pesquisadores, gestores e representantes de movimentos sociais para discutir os desafios da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos territórios. A atividade integrou a programação dos 125 anos da Fiocruz e homenageou o centenário de nascimento do geógrafo Milton Santos.
Ao longo do seminário, os debates reforçaram a necessidade de aproximar os compromissos globais da realidade cotidiana das populações, especialmente diante do agravamento das desigualdades sociais e dos impactos da crise climática. Experiências desenvolvidas pela Fiocruz em diferentes regiões do país foram apresentadas como exemplos de articulação entre saúde, sustentabilidade, participação social e desenvolvimento territorial.
Na abertura do seminário, o diretor do Fórum Itaboraí, Felix Rosenberg, apresentou as principais frentes de atuação da instituição, que atua há 15 anos em Petrópolis. A apresentação evidenciou projetos desenvolvidos nas áreas de arte e cultura, segurança alimentar e combate à fome, promoção do uso seguro de plantas medicinais, fortalecimento comunitário, mudanças climáticas e fortalecimento do SUS e das políticas públicas.” O trabalho do Fórum busca integrar ciência, participação social e políticas públicas para aproximar a Agenda 2030 da realidade dos territórios e promover respostas concretas às vulnerabilidades sociais e ambientais”, afirma Felix.
Coordenador da Agenda Estratégica da Fiocruz para a Agenda (EFA) 2030, Paulo Gadelha deu sequência à fala abordando os desafios enfrentados pela agenda internacional, sobretudo diante do avanço de discursos contrários ao multilateralismo e aos compromissos ambientais globais. Segundo ele, a Agenda 2030 consolidou, pela primeira vez, dimensões sociais, econômicas e ambientais em um compromisso assumido por mais de 190 países. “O grande mote da Agenda 2030 é não deixar ninguém para trás. Isso significa olhar para aqueles que vivem situações mais vulnerabilizadas e garantir que os objetivos cheguem efetivamente aos territórios onde as pessoas vivem”, destacou.
Durante a apresentação, Gadelha ressaltou a importância da participação comunitária na construção de soluções locais. O pesquisador apresentou iniciativas ligadas à vigilância climática, monitoramento ambiental e integração entre tecnologias sociais e digitais, incluindo projetos desenvolvidos na Amazônia e em regiões costeiras.
Em seguida, Rômulo Paes, coordenador do Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) destacou que os desafios da Agenda 2030 estão diretamente relacionados à crise da cooperação internacional e ao enfraquecimento dos mecanismos de governança global. Segundo ele, a agenda segue sendo um “imperativo moral” diante de problemas cada vez mais interligados, como mudanças climáticas, pandemias, guerras, insegurança e riscos digitais. “O desafio principal é recuperar o espírito de cooperação dos países, a vontade de trabalhar de forma conjunta para enfrentar problemas que não são de um só país ou de uma região, mas de todo o planeta”, afirmou.
Ao refletir sobre o conceito de desenvolvimento, Rômulo Paes defendeu uma visão integrada entre crescimento econômico, justiça social, preservação ambiental e fortalecimento democrático. O pesquisador também destacou o protagonismo histórico do Brasil na formulação da Agenda 2030 e avaliou que o país pode voltar a ocupar posição relevante nas próximas agendas globais.
A mesa da tarde discutiu os impactos territoriais da Agenda 2030 e o papel das cidades e redes locais na promoção de territórios sustentáveis e saudáveis. O geógrafo William Ribeiro, coordenador da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias (RECIME), abordou as relações entre urbanização, desigualdade e território a partir da obra de Milton Santos. Segundo ele, a urbanização deve ser compreendida como um processo marcado por disputas, desigualdades e pela atuação das grandes corporações sobre o espaço urbano. “Pensar a partir da periferia é um pressuposto importantíssimo no legado fundamental do professor Milton Santos”, afirmou.
William também relacionou o debate urbano às políticas de saúde pública e ao planejamento territorial, ressaltando a importância de compreender as especificidades regionais e as desigualdades no acesso aos serviços essenciais. Para ele, o legado de Milton Santos permanece atual ao propor uma leitura do território baseada na cidadania e na integração entre espaço, sociedade e políticas públicas.
A segunda fala no período da tarde foi do coordenador do Programa Institucional de Territórios Sustentáveis e Saudáveis (PITSS) da Fiocruz, Luís Madeira, que apresentou experiências voltadas à articulação entre saúde, desenvolvimento territorial e participação social. Segundo ele, a Fiocruz desenvolve atualmente mais de mil iniciativas territorializadas em diferentes regiões do país.
Madeira ressaltou que emergências climáticas, precariedade habitacional e desigualdades urbanas impactam diretamente a saúde da população, especialmente em periferias e favelas. Para o pesquisador, políticas urbanas e ações intersetoriais precisam fortalecer o Sistema Único de Saúde e considerar as singularidades de cada território. “A construção de territórios sustentáveis e saudáveis implica em conhecer a realidade de cada território. Não existe solução padrão. As estratégias precisam ser construídas considerando os conhecimentos locais, os processos de determinação socioambiental da saúde e as demandas concretas das populações”, afirmou.
Encerrando o debate, Roberta Silva, coordenadora da Central Única das Favelas (CUFA), compartilhou experiências a partir da própria realidade enquanto moradora da comunidade do Neylor em Petrópolis, trazendo a perspectiva sobre os impactos da desigualdade social, da ausência de políticas públicas efetivas e do abandono das comunidades vulneráveis. Em sua fala, destacou a realidade de mães solo, jovens e moradores de favelas, defendendo que a transformação social precisa acontecer dentro das comunidades, com presença, escuta e acesso ao conhecimento. “O que a gente precisa é de olhares, de apoio, de acessibilidade e de pessoas que levem conhecimento lá para dentro”, afirmou.
Ao reunir diferentes atores da sociedade civil, o seminário propõe uma reflexão crítica sobre a Agenda 2030, defendendo que seus objetivos não permaneçam restritos aos acordos institucionais ou ao campo discursivo, mas sejam efetivamente construídos a partir das realidades dos territórios vulnerabilizados. A proposta é que as políticas públicas, em diferentes escalas — do plano global às ações locais — considerem as desigualdades socioespaciais, os saberes comunitários e a participação ativa das populações diretamente impactadas, em processos coletivos de escuta, planejamento e transformação social, tendo como horizonte os impactos produzidos no presente e no futuro.


